Desde que surgiu o ChatGPT, a questão é repetida: será que as máquinas aprenderão a contar boas histórias? Produzirão contos, crônicas, romances, poemas, peças, roteiros de filmes e séries com profundidade, graça, beleza? Na mesma seara, em entrevistas com escritores virou pergunta obrigatória "Você usa IA no seu trabalho?".
Outro dia, num bar, um cara queria me convencer que se eu criasse os personagens, uma trama e pedisse pra uma dessas ferramentas misturar, sairiam ótimas cenas. Ele não entendia por que eu insistia no método anacrônico de buscar ideias dentro da minha cabeça.
Grande parte da graça de escrever está em descobrir sobre o que estamos escrevendo. Na maior parte das vezes as histórias não brotam prontas na cabeça de um escritor. O que aparece é uma imagem. Uma frase. Uma cena. Um fiozinho que o inconsciente lança do fundo de suas Fossas Marianas e que devemos puxar, até desenrolar todo o novelo. O cerne deste ofício é o processo, não uma noite de autógrafos ou uma estreia na TV.