
Peruanos vão às urnas no domingo (7) em meio à crise política A Justiça do Peru decidiu, na sexta-feira (5), dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, levar a julgamento o candidato de esquerda Roberto Sánchez por supostas irregularidades na declaração de financiamento de seu partido há cerca de seis anos. O candidato enfrentará no domingo a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, em um segundo turno considerado acirrado. A disputa eleitoral não será afetada pela decisão judicial, já que ainda cabe recurso. Baixe o GloboPop para assistir a vídeos curtos verticais da Globo Além disso, caso vença as eleições, Sánchez, congressista e ex-ministro de 57 anos, passará a ter imunidade, conforme prevê a Constituição. "Decreta-se o auto de persecução penal; em consequência, declara-se haver mérito para o julgamento oral contra Roberto Sánchez Palomino", afirmou o juiz Adolfo Farfán após uma audiência virtual de dois dias. O Ministério Público peruano, que pediu a condenação de Sánchez a cinco anos e quatro meses de prisão, manifestou concordância com a decisão. A defesa de Sánchez informou que recorrerá da decisão e tem prazo de uma semana para apresentar a apelação. Segundo o Ministério Público, há inconsistências nos relatórios financeiros do partido de Sánchez, o Juntos pelo Peru, referentes às campanhas para as eleições regionais e municipais realizadas entre 2018 e 2020. De acordo com a acusação, Sánchez teria recebido mais de US$ 57 mil (R$ 292 mil, na cotação atual) de integrantes de seu grupo político para atividades partidárias sem declarar os valores ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE). "Esta magistratura decidiu dar prosseguimento ao caso, rejeitar as observações da defesa e reconhecer a validade formal da acusação", acrescentou o juiz. "Uma mentira" O candidato à Presidência do Peru Roberto Sánchez durante entrevista à agência de notícias Reuters no dia 10 de abril de 2026 Angela Ponce/Reuters Até o momento, Sánchez não se pronunciou sobre a decisão judicial. Na quinta-feira, ele acompanhou a audiência de forma virtual, pouco antes de participar do comício de encerramento de campanha em Lima. "Durante anos tentaram construir uma mentira para me desacreditar politicamente", escreveu Sánchez em abril sobre o processo na rede social X. O político afirma que o caso havia sido arquivado por um tribunal em 2025 por falta de provas sobre o suposto crime de fraude. Nesta eleição, marcada pelo aumento da criminalidade e por sucessivas crises políticas, o candidato de esquerda se apresenta como a voz dos mais pobres e das regiões rurais do país. Ele também acusa Fujimori de integrar uma "máfia" política que, segundo ele, é responsável pela instabilidade enfrentada pelo Peru, que teve oito presidentes desde 2016. Quatro presidentes foram destituídos pelo Congresso, onde o partido de Fujimori, o Força Popular, exerce forte influência. Outros dois renunciaram antes de serem destituídos, um concluiu um breve mandato de oito meses e o atual presidente interino deixará o cargo em julho. Relações "respeitosas" com os EUA Na reta final da campanha, Sánchez tem reforçado discursos de consenso e estabilidade, afastando-se das propostas de mudanças mais radicais que geraram preocupação entre parte do eleitorado conservador. Na sexta-feira, o candidato afirmou à AFP que deseja manter relações "respeitosas" com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "A boa vizinhança e as relações respeitosas entre as nações (...) são sempre uma prioridade. E o Peru, que tem relações históricas com os Estados Unidos, não pode ser exceção. Essa será a nossa orientação de governo", afirmou. Durante seu segundo mandato, Trump tem comentado eleições na América Latina e manifestado apoio a candidatos conservadores, mas ainda não se pronunciou sobre a disputa no Peru. Ao comentar a instabilidade política do país, Sánchez defendeu a construção de um consenso para limitar o uso da prerrogativa do Congresso de destituir presidentes sob a alegação de "incapacidade moral permanente", prevista de forma ampla na Constituição. "Temos que recuperar o equilíbrio entre os Poderes, garantir a separação institucional e regulamentar a vacância por incapacidade moral permanente do presidente", defendeu. O líder de esquerda afirmou que essa medida ajudará a "acabar com esse desgoverno que começou em 2016".